Livro do Mês - Fevereiro / by aefaup

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Livro do mês de fevereiro escolhido pela professora Carla Garrido de Oliveira

"[A] beleza de uma divisão japonesa, produzida unicamente por um jogo sobre o grau de opacidade da sombra, dispensa quaisquer acessórios. O ocidental, vendo isso, fica surpreendido com este despojamento e julga tratar-se apenas de paredes cinzentas desprovidas de qualquer ornamento, interpretação perfeitamente legítima do seu ponto de vista, mas que prova que ele não conseguiu desvendar o enigma da sombra.

Quanto a nós, não contentes com isto, no exterior dessas divisões onde os raios de sol já só penetram com muita dificuldade, projetámos um grande beiral, fixámos uma varanda para afastar ainda mais a luz solar. E por fim, no interior da divisão, os shōji deixam apenas entrar um reflexo filtrado da luz devolvida pelo jardim.

Ora é precisamente nessa luz indireta e difusa que se encontra o fator essencial da beleza das nossas residências. E para que esta luz cansada, atenuada, precária, impregne completamente as paredes da divisão, pintamos de propósito com cores neutras essas paredes estucadas. Se usamos, de facto, tintas brilhantes para os vestíbulos, cozinhas ou corredores, as paredes das divisões para habitação são quase sempre estucadas, e muito raramente brilhantes. Porque se fossem brilhantes, todo o encanto, subtil e discreto, dessa escassa luz se dissiparia.

Comprazemo-nos nessa claridade ténue, feita de luz exterior de aparência incerta, retida na superfície das paredes de cor crepuscular, e que conserva com dificuldade uma última réstia de vida. Para nós, essa claridade numa parede, ou antes essa penumbra, vale por todos os ornamentos do mundo e vê-la não nos cansa nunca.

Nestas condições, é natural que essas paredes estucadas sejam cobertas com uma cor uniforme para não alterar essa claridade; se, de uma divisão para outra, a cor de fundo pode variar ligeiramente, a diferença em todo o caso é apenas ínfima. Não se tratará tanto de uma diferença de cores como de uma variação de intensidade, pouco mais que uma mudança de humor sentida por quem a olha. Deste modo, graças a uma impercetível diferença na cor das paredes, a sombra de cada divisão distingue-se por uma gradação de tom.”

 

Junichirō Tanizaki, Elogio da Sombra, Relógio D’Água, 2016 [1933]: 32-33.

 

 

Este é um livro opaco e indutor de estranheza e ambiguidade, não oferece nem reitera certezas, antes interroga(-nos); a escolha é pela densidade e invisibilidade, pela quietude e lentidão, saber da luz perseguindo a sombra até à penumbra, do jardim à parede interior de uma alcova, tempo suspenso em 'movimento parado', entre um ‘nosso’ e os ‘outros’ de um autor entre tempos, de um Japão antigo e um Ocidente moderno.

Esta é a primeira escolha, não sem ser ensombrada por outras –as pedras na Viagem do ElefanteA vida nos Bosques ou O Senhor Walser e a Floresta–, escolha que persistiu precisamente pela pertença impregnada na penumbra da memória –esta foi uma recomendação oferecida pela professora Madalena Pinto da Silva, há quase onze anos e bem que podia ter sido há vinte e cinco.

Carla GO, Jan2019